4. BRASIL 6.2.13

1. A TOLERNCIA TEM QUE SER ZERO
2.  CARNAVAL NA RENANLNDIA
3. AS CMARAS DA MORTE
4. A ARMADILHA DE EDUARDO CUNHA
5. MULTIDES, A GRANDE AMEAA
6. O TUCANO INDESEJADO
7. SANTA MARIA, ROGAI POR ELES!

1. A TOLERNCIA TEM QUE SER ZERO
O Brasil no pode mais conviver com a rotina de pequenas irregularidades que viram grandes tragdias
Daniela Mendes


 Domingo 27 de janeiro.
 No Centro Desportivo Municipal de Santa Maria, o mais cruel dos dramas, o de um pai a reconhecer o corpo de seu filho, foi encenado 234 vezes. A maior das solides era sentida coletivamente. Na dimenso do desastre, no havia na cidade flores suficientes para as ltimas homenagens a tantas vtimas. No necrotrio improvisado, o calor castigava ainda mais os que j estavam sofrendo por suas perdas. S foi minimizado quando a presidenta Dilma Rousseff, ao chegar ao local, teve a sensibilidade de mandar instalar tendas com refrigeradores de ar para acolher os pais  espera de sua trgica misso
 
As cenas ainda esto vivas na memria de quem viu a lona do Gran Circo Norte-Americano sumir sob as chamas e matar 503 pessoas em Niteri, 70% delas crianas, em 1961. Da mesma forma, o incndio que interrompeu a vida de 236 jovens em Santa Maria no ter sido esquecido daqui a 50 anos por quem testemunhou as cenas de horror na boate Kiss. A fumaa escura e espessa que tomou conta do ambiente. Os corpos inertes empilhados pela casa noturna. Os celulares das vtimas que tocavam sem parar, traduzindo a ansiedade de familiares por notcias. Um nico aparelho recebeu 104 ligaes. O visor mostrava o autor das chamadas: me. Nada disso ter desaparecido da memria. A perplexidade e a tristeza permearam todas as conversas na semana passada. O Brasil se emocionou com a dor de cada pai e me que enterrou um, s vezes, dois filhos. Um dos sentimentos mais fortes, porm, foi o de indignao. De to evitvel, essa tragdia parece sem sentido, pois ela  resultado da soma de todos os erros, os mais banais e inaceitveis.  a prova de que as pequenas irregularidades viram grandes tragdias. Por mais chocante, absurdo e intolervel, o holocausto gacho tem de ser transformador. As vtimas da Kiss devem ser cultuadas como mrtires de um novo pas, o da tolerncia zero.
 
O Brasil precisa deixar de ser o pas do jeitinho, do improviso, dos pequenos delitos. No se pode mais aceitar a rotina de contravenes  maiores ou menores  que se repetem como sina. A propina para o guarda de trnsito, o fiscal corrupto e, como pano de fundo, a certeza da impunidade. Na Kiss houve um conjunto de falhas gritantes: existia apenas uma porta que servia como entrada e sada de emergncia e ainda com obstculos que afunilaram o fluxo de pessoas. No havia sinalizao de rota de fuga, o que levou dezenas de jovens a correr para os banheiros onde morreram asfixiados. O extintor no funcionou quando tentaram debelar o fogo que comeou aps a banda Gurizada Fandangueira disparar fogos de artifcio na boate, a espuma que revestia a casa era inflamvel e o local no contava com brigada de incndio. Os seguranas, mal treinados e despreparados, impediram a sada das pessoas em desespero at perceberem do que se tratava. Foram segundos fatais. Os alvars da prefeitura e o do Corpo de Bombeiros estavam vencidos; mesmo assim a Kiss estava de portas abertas. Em uma dcada,  o terceiro acidente com a mesma combinao: boate, banda e fogos. Isso levou a mudanas em outros pases (leia quadro  pg. 44).
 
Os jovens de Santa Maria ficaram presos numa verdadeira cmara da morte. A combusto dos materiais usados no revestimento acstico da boate gacha intoxicou as vtimas de gs cianeto, o mesmo usado nas cmaras de gs nazistas. Agora, descobriu-se que h milhares de alapes como a Kiss funcionando em todo o Pas, alguns com autorizao, boa parte sem. So estabelecimentos que abrem suas portas todos os dias sem alvar de funcionamento e desrespeitam regras bsicas de segurana. Em So Paulo, existem 600 casas noturnas sem alvar da prefeitura. Mais grave: 70% das boates, sales de clube, bufs e locais de show foram vetados pelos bombeiros nos ltimos dois anos, mas no fecharam. De 636 pedidos de vistoria sobre segurana contra incndio recebidos, apenas 194 foram aprovados. Os outros foram negados por apresentar falhas no projeto ou permanecem em anlise para processo de revalidao. Mas, no pas da tolerncia, continuam funcionando.
 
As mortes de Santa Maria acordaram as autoridades para a gravidade da situao. De norte a sul, prefeituras e bombeiros saram em mutiro para fiscalizar as boates. Centenas foram fechadas preventivamente. Manaus lacrou 66 das 98 registradas na cidade. Em Fortaleza, casas de show tiveram de suspender suas atividades por no oferecer sequer 30% das condies de segurana exigidas. No Estado do Rio, 127 estabelecimentos sofreram interdio. Boates famosas como a Nuth e 021 foram lacradas e tero de realizar obras para funcionar. Na capital paulista, os principais empresrios da noite se anteciparam e decidiram no abrir na semana passada alegando luto pelas mortes em Santa Maria. Agora, correm contra o tempo para regularizar seus estabelecimentos e, assim, proporcionar diverso sem risco.

A banda Gurizada Fandangueira disparou fogos de artifcio na boate. O sanfoneiro Danilo Jaques morreu no incndio.  dir., Mauro Hoffmann, um dos scios da casa, que foi preso na segunda-feira 28
 
A presidenta Dilma Rousseff, em encontro com prefeitos, pediu mais fiscalizao. Temos o dever de assumir o compromisso de evitar que coisa semelhante jamais venha a se repetir, afirmou.  preciso ser intolerante com as irregularidades em casas noturnas, a exemplo da nova lei seca que comeou a vigorar na semana passada e fecha o cerco a quem for flagrado dirigindo depois de beber. O infrator no pode mais se esconder no preceito constitucional de no produzir prova contra si mesmo, recusar o bafmetro e sair inclume. Testemunhos, testes clnicos e depoimentos de policiais podem agora comprovar a embriaguez do motorista. S medidas assim podem acabar com nossas tragdias cotidianas, imensas, como a de Santa Maria, ou no. Faz um ano que uma reforma irregular provocou a queda de trs prdios no centro do Rio, matando 17 pessoas (cinco permanecem desaparecidas), mas obras sem autorizao continuam ocorrendo. A cada temporada de chuvas, sabemos que vamos ver corpos sendo encontrados sob os escombros de casas que haviam sido erguidas irregularmente em reas de risco. A cada fim de semana um motorista alcoolizado ceifar uma vida. Eles precisam ser parados.
 
O incndio da Kiss comprova que a segurana do pblico precisa ser a prioridade nmero 1 dos donos de boates e os frequentadores de baladas devem estar atentos e denunciar quando h problemas. No Estado do Rio, a reao da populao j pode ser mensurada. Em apenas quatro dias, at a sexta-feira 1, o Disque-Denncia recebeu 441 ligaes alertando para supostas irregularidades nas normas de segurana de casas noturnas, barzinhos e espaos de eventos. Para efeito de comparao, em todo o ms de janeiro do ano passado foram apenas 134 chamadas. As redes sociais tambm so uma poderosa arma para cobrar providncias dos empresrios. Nenhum vai querer que seu estabelecimento seja descurtido.
 
H regras bsicas para tornar as baladas mais seguras: 
Respeitar a capacidade mxima: ambientes superlotados causam tumultos e agravam momentos de crise.
 Brigada de incndio treinada: numa emergncia,  preciso ter equipe apta a agir rapidamente.
 Regras de funcionamento: os revestimentos utilizados no podem ser inflamveis, artefatos pirotcnicos so inadequados para locais fechados, reformas tm de ser informadas e autorizadas pelos rgos competentes.
 Portas: locais de grande aglomerao devem ter mais de uma rota de fuga, sinalizada e desobstruda, como nos cinemas.
 Equipamento: extintores visveis e funcionando e luzes de emergncia que orientem a sada do pblico so essenciais.
 Pagamento:  preciso extinguir a comanda, essa excrescncia brasileira.  bom para o empresrio, pois a pessoa tende a consumir sem se dar conta exatamente da fatura e agiliza o atendimento. Mas  algo desastroso em situaes de pnico. Segundos preciosos foram perdidos porque os seguranas da boate Kiss barraram a sada, pois acreditavam que o corre-corre se devia a uma briga e o pblico daria o calote. Cada um tem de pagar  medida que consumir. Quem acha inconveniente ir ao caixa toda hora, que compre vrios tquetes de uma vez.
 Fiscalizao: prefeituras e bombeiros tm de fiscalizar continuamente esses locais de grandes aglomeraes. Se houver irregularidades, a casa deve ser lacrada at sanar o problema.
 
No h uma lei federal que estabelea as regras de preveno e proteo contra incndio. H um emaranhado de normas, leis estaduais, decretos municipais que regulam o funcionamento de bares, boates e casas de show. Se os itens de segurana so os mesmos em qualquer lugar do mundo, no h motivo para essa balbrdia legal. Vrios projetos acerca desse tema esto parados h anos no Congresso Nacional e os parlamentares devem aproveitar esse momento de comoo para aprovar um cdigo nacional que discipline as regras para o funcionamento de casas de entretenimento. Mesmo que as propostas no avancem no Parlamento, a sociedade tem parmetros muito claros que podem ser seguidos por qualquer empresrio cioso de seu negcio e preocupado com seus clientes. Os critrios so conhecidos. A Associao Brasileira de Normas Tcnicas (ABNT)  um frum nacional normalizador, que rene o conhecimento tcnico mais avanado na rea de construo civil e segurana contra incndio.  dela a determinao para a existncia de pelo menos duas sadas em locais de grandes aglomeraes, como boates. O rgo tambm estabelece os tipos de materiais a serem usados em revestimentos; equipamentos necessrios, como o nmero de extintores; e a existncia de brigadas de incndio, entre outros itens. Uma tragdia dessas propores no teria acontecido se as normas tivessem sido seguidas, diz Jos Carlos Tomina, superintendente do Comit Brasileiro de Segurana contra Incndio da ABNT e pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnolgicas.
 
Seguir rigorosamente essas normas numa edificao equivale a ter uma espcie de selo de qualidade de segurana. Quem sai para se divertir ficaria muito mais tranquilo se soubesse que a casa noturna onde frequenta foi construda e funciona seguindo as regras da ABNT. Mas, por questes econmicas, os empresrios da noite costumam negligenciar esses padres de excelncia  ou simplesmente descumprem mesmo a legislao, como ocorreu em Santa Maria. Um decreto de 1998, vlido em todo o Rio Grande do Sul, afirma que a resoluo da ABNT sobre sadas de emergncia deve ser cumprida. Ou seja, casas noturnas devem ter ao menos duas rotas de fuga. Como, ento, a Kiss foi autorizada pela prefeitura e pelo Corpo de Bombeiros a funcionar? A investigao policial precisa ser minuciosa para apontar as falhas. Na semana passada, foram presos provisoriamente dois scios da boate, Elissandro Calegaro Spohr e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda. Os responsveis pela tragdia precisam ser exemplarmente punidos para que a dor e o luto compartilhados pelo Brasil nos ltimos dias no seja em vo.


2.  CARNAVAL NA RENANLNDIA
Reconduo de Renan Calheiros  presidncia do senado, mesmo debaixo de denncias, representa a vitria do atraso. Eleio foi comemorada com rojes em seu bero poltico
Srgio Pardellas

 O INEVITVEL - Com o apoio do PT, Renan voltou  presidncia do Senado, seis anos depois de deixar o posto pela porta dos fundos
 
O Carnaval foi antecipado em uma semana no municpio de Murici, localizado a 40 quilmetros de Macei (AL). Na sexta-feira 1o, o Senado Federal reconduziu seu filho mais prdigo, o senador Renan Calheiros (PMDB), a um papel de proa na poltica nacional. Com 56 votos, de um total de 78, o parlamentar alagoano foi alado novamente  presidncia do senado, seis anos depois de ter deixado o posto  o terceiro na linha sucessria da presidenta Dilma Rousseff  pela porta dos fundos, acusado de ter despesas pessoais pagas por uma empreiteira. Novamente detentor de muito poder, Renan personifica um perfil de poltico que a sociedade no tolera mais, mas a quem Murici presta seguidas reverncias. L, como diria Manuel Bandeira,  a Pasargada de Renan e de seu cl, a famlia Calheiros, onde eles so mais do que amigos do rei. So os verdadeiros reis e seu reinado se estende h pelo menos 17 anos. Desde 1996, quando o irmo do senador Renan, Remi Calheiros, recuperou as chaves da prefeitura, a famlia Calheiros e o PMDB no perdem uma eleio sequer no municpio. Comandam Murici com mos de ferro e ainda desfrutam do amplo apoio dos sditos folies.

 CIDADE NATAL - Folies na Praa da Matriz em Murici (AL), municpio comandado h 17 anos pelo cl Calheiros
 
No por acaso, confirmado o triunfo de Renan no Senado, foi possvel escutar o barulho do espocar dos fogos de artifcio na pacata cidade de 26 mil habitantes. A venerao ao cl Calheiros em Murici  cultivada  base de prticas explcitas de clientelismo. Em 2010, ano eleitoral, a casa da famlia de Renan, pertencente  matriarca Ivanilda, foi usada para cabalar votos em troca de favores e ajuda material. Enquanto, em um dos cmodos, pessoas treinadas preenchiam santinhos e ensinavam a votar nos Calheiros nas urnas eletrnicas, na cozinha outra equipe preparava comidas em imensas panelas para pessoas vindas de kombis e caminhonetes da periferia da cidade e zona rural.  a hora de ganhar um troco e aliviar a situao em casa, justifica um morador da cidade. A popularidade  confirmada no escrutnio das urnas. E tambm durante o Carnaval, quando Renan e famlia costumam atravessar uma multido de folies pintados de tinta em p e desfilar em cima do trio eltrico no Bloco Tudo Azul, que se tornou uma das mais tradicionais manifestaes da festa do momo em Alagoas. O senador  ovacionado toda vez que comparece  festa, admite Jos da Cunha, professor e morador de Murici.

Para Renan, o vale-tudo na tentativa de amealhar cada vez mais e mais poder trata-se de um ritual comum  arte da poltica. O problema  que o atual presidente do Senado extrapolou e muito os limites da pequena Murici. Nos ltimos 25 anos, ampliou sua influncia para toda a Alagoas  Estado em que hoje controla um quarto dos prefeitos. E, depois de conquistar pela primeira vez uma cadeira na Cmara Federal, em Braslia, ainda na dcada de 90, conseguiu integrar a base de apoio de todos os presidentes eleitos aps a ditadura militar. De adversrio poltico, virou lder do governo Collor, apoiou o processo de impeachment, comandou uma estatal no governo Itamar Franco, foi nomeado ministro da Justia durante a gesto de Fernando Henrique Cardoso e tornou-se, em 2003, um dos principais interlocutores de Lula no Congresso. Assim, pavimentou o caminho que o levou at o comando do Legislativo em 2005. Em 2007, Renan foi acusado de pagar penso alimentcia a sua ex-amante Mnica Veloso, com quem teve uma filha, com recursos da empreiteira Mendes Jnior. Na semana passada, o procurador-geral da Repblica, Roberto Gurgel, confirmou em denncia apresentada ao STF que Renan apresentou notas frias e documentos falsificados para justificar a origem dos recursos. O senador responder pelos crimes de peculato e falsidade ideolgica. Diferentemente de agora, seis anos atrs, no restou outra sada a Renan seno renunciar ao posto de presidente do Senado. Conseguiu, no entanto, evitar a cassao do mandato em plenrio e, mesmo longe dos holofotes, manter o prestgio.

Durante o recesso parlamentar deste ano, Renan reuniu prefeitos e parlamentares em seu QG de articulaes polticas, a casa de praia, no municpio de Barra de So Miguel. De l, costurou os ltimos apoios para a eleio ao Senado. Sair daqui de Alagoas e se tornar um lder poltico nacional no  por acaso. Renan se destaca entre os demais. Independentemente de agremiao partidria dos prefeitos, o senador consegue trazer recursos para todos os municpios alagoanos com mais facilidade, diz o ex-deputado federal e prefeito do Pilar, Carlos Alberto Canuto (PMDB), um dos habitus dos convescotes de Renan. Em Macei, cidade onde o senador alagoano mantm residncia no apartamento 703 do Edifcio Tartana, avaliado em R$ 2 milhes, a 50 metros da areia branca da Praia de Ponta Verde, seus correligionrios e eleitores dizem que a receita do sucesso do senador  a presena certa em inauguraes de obras pblicas bancadas com recursos federais ou fruto de suas emendas parlamentares. Um exemplo foi o novo Hotel Ponta Verde, na Praia do Francs, inaugurado no municpio de Marechal Deodoro. Normalmente, o senador Renan no tem vida social. Sua vida social  a poltica. Seu lazer  visitar prefeitos e fazer poltica nos municpios do serto ao litoral sul, nos fins de semana. Essa  a receita do sucesso que fez com que Renan ganhasse popularidade em Murici e aqui em Alagoas, disse um ex-assessor.

J o receiturio para se ganhar eleio no Senado foi demonstrado na ltima semana, quando Renan desembarcou em Braslia. Mesmo debaixo de uma saraivada de denncias, no se conteve em aplicar doses cavalares do mais puro fisiologismo para garantir sua vitria. Loteou cargos na Mesa Diretora e trabalhou internamente no PMDB para debelar um racha em torno da disputa pela liderana no Senado. O senador Romero Juc (RR) ameaou disputar a liderana do partido contra Euncio Oliveira (CE). Mas Renan agiu como manda o figurino no Senado. Garantiu a Segunda Vice-Presidncia para Juc e a crise foi estancada. O cargo havia sido oferecido ao PTB do senador Gim Argello (DF), mas o aliado aceitou ocupar a Segunda Secretaria. Ser representado por Joo Vicente Claudino (PI). O senador tambm fez outros acenos importantes capazes de lhe assegurar a eleio. Por meio de emissrios, prometeu no criar problemas para o governo. Como consequncia, ganhou o apoio do PT. Coube ao senador tucano Acio Neves entoar a voz do bom-senso: O PMDB precisa criar facilidades para que possamos ter um nome que agregue todas as foras polticas do Congresso e o Senado inicie uma nova fase, disse o poltico mineiro. Em vo. O Senado preferiu escutar as vozes do atraso. Enquanto isso,  Carnaval em Murici. 

Com reportagem de Matheus de Arajo, de Alagoas


3. AS CMARAS DA MORTE
As falhas de Santa Maria se repetem criminosamente em todo o Brasil. Mais de 70% das casas noturnas no respeitam normas mnimas de segurana e ameaam a vida de nossos jovens. Ou se ajustam ou devem ser fechadas
Flvio Costa, Rachel Costa, Tamara Menezes e Rodrigo Cardoso

 Segunda-feira 28 de janeiro.
 Um dia depois, o cenrio na entrada da Kiss denunciava o efeito nefasto da tolerncia com irregularidades. Por existir apenas uma porta, boa parte das mil pessoas que lotavam a boate no conseguiu sair. Dezenas de corpos estavam empilhados a apenas um metro da sada. Somente no banheiro havia 180 vtimas. Casas noturnas irregulares como essa funcionam em todo o Pas e deveriam ser fechadas
 
A morte de 236 pessoas na boate Kiss, de Santa Maria, no Rio Grande do Sul,  resultado de uma sucesso de erros, omisses e irresponsabilidades dos proprietrios da casa noturna, da banda, que acendeu um sinalizador e provocou o incndio, e da fiscalizao do poder pblico, especificamente o Corpo de Bombeiros e a prefeitura da cidade gacha. Infelizmente, porm, a Kiss no  o nico exemplo de espao em que o entretenimento se torna arma letal.
 
Por todo o Pas, diversos proprietrios negligenciam o captulo segurana em suas casas noturnas, tratando-o como um custo para o empreendimento, e no como um investimento na vida de seus clientes.
 At a sexta-feira 10, centenas de bares e boates foram interditados pelas prefeituras das capitais e de cidades de mdio porte dos Estados da Bahia, Amazonas, Cear, Alagoas, Pernambuco, Santa Catarina, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Esses espaos de reunio  fiscalizados aps a tragdia de Santa Maria  apresentavam falhas de segurana semelhantes s da Kiss. Somente em Manaus, 66 boates e bares foram interditados, inclusive a Tropical Club, uma das mais frequentadas da cidade, que leva o nome do luxuoso hotel que a abriga. Nela, as sadas de emergncia estavam fechadas e os extintores de incndio no tinham sinalizao. Em Salvador, vrias boates funcionavam sem alvar, uma delas  localizada no bairro bomio do Rio Vermelho  era uma borracharia pela manh e uma danceteria  noite.

Fiscalizao dos bombeiros na quarta-feira 30 lacra boate 021, na Barra da Tijuca, no Rio
 
Em Florianpolis, 31 das 47 boates irregulares no possuem planos de preveno contra incndio. O Corpo de Bombeiros do Cear fechou as casas de show Kukukaya e Terrao e as boates L4 Up Club e Meet Music & Lounge, todas de Fortaleza. L, 70% das boates apresentam problemas. No Estado do Rio de Janeiro, a fiscalizao constatou que apenas 5% dos estabelecimentos esto regulares. A casa The Best Etlico, em Cabo Frio, foi a primeira a ser fechada. O local ter que passar por reforma para que sejam includas sadas de emergncia. Na Kiss, de Santa Maria, havia apenas uma porta, sem opes alternativas de fuga. Pior: esse acesso, por alguns minutos, foi fechado por seguranas que, sem saber do incndio, exigiram a apresentao da comanda das pessoas que queriam deixar o local. Naquela fatdica noite, a Kiss, com capacidade mxima para 631 frequentadores, distribuiu 830 comandas. A polcia j constatou que mais de mil pessoas estavam na casa. Imagens do sistema interno de segurana poderiam provar definitivamente a superlotao. Mas os aparelhos foram retirados do local. Uma srie de outras irregularidades, como uso de espuma de fcil combusto e extintores que no funcionavam, contribuiu para ampliar o acidente. Por isso, dois scios, Elissandro Calegaro Spohr e Mauro Hoffmann, esto presos. Dois integrantes da banda, Marcelo dos Santos e Luciano Leo, tambm foram detidos em funo do uso do sinalizador. A priso  por 30 dias.
 
Para conhecer as condies de segurana de outras casas noturnas do Pas, ISTO percorreu as principais boates de So Paulo e do Rio de Janeiro no incio da semana passada. Na capital fluminense, a danceteria Melt, por exemplo, tem capacidade para 650 pessoas. A casa informava ter mais do que o dobro do nmero de extintores exigidos pela legislao, mas nenhum estava visvel. No Estado do Rio, 200 estabelecimentos foram visitados e 127 sofreram interdio. As autoridades decidiram fechar inclusive 13 teatros da capital e Niteri em situao irregular.

Aps a tragdia, a OutLaws, do msico Luan Santana, resolveu cumprir a lei e proibiu os fogos acoplados s garrafas de champanhe, o que no acontecia antes

Na capital paulista, de acordo com a prefeitura, 600 boates esto sem alvar de funcionamento, nmero trs vezes maior do que as que funcionam legalmente. A culpa, admite o prprio poder pblico, nem sempre  do proprietrio, mas sim de burocracias internas do rgo municipal. Para agravar a situao, em uma blitz do Corpo de Bombeiros realizada na semana passada em todo o Estado, de 303 casas fiscalizadas, 177 apresentaram problemas relacionados  segurana. Dessas, 66 tm o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB), mas possuem falhas, como luz de emergncia apagada ou extintor de incndio vencido, e 111 nem sequer dispem do documento. A Kiss, de Santa Maria, funcionava sem alvar desde agosto de 2012. Tanto a prefeitura quanto os bombeiros sabiam disso e fizeram vistas grossas. Agora, o prefeito e o comandante da corporao podem ser corresponsabilizados pelas mais de 200 mortes.
 
No centro de So Paulo, encontra-se na mesma situao a badalada casa noturna Alberta. J vo trs anos que o estabelecimento abre as portas sem a autorizao da prefeitura. Empresrios do setor se reuniram com o prefeito Fernando Had- dad, na quarta-feira 30, para se queixar da morosidade da liberao do alvar por parte do poder pblico e melhorar os procedimentos de segurana. Mas  uma falsa iluso achar que um alvar indique que o lugar est seguro. Pode no estar, afirma o arquiteto e urbanista Ives de Freitas, ex-diretor do Departamento de Controle do Uso de Imveis (Contru).
 
Segundo Freitas, as adaptaes feitas no interior dos estabelecimentos muitas vezes no so informadas ao poder pblico, que, por seu turno, no fiscaliza como deveria por falta de pessoal para visitar os estabelecimentos aps a liberao do alvar. Nossas normas so de Primeiro Mundo. Elas no so o problema. O problema  o que se instala nas casas noturnas depois da aprovao da licena, refora Paulo Giaquinto, professor de urbanismo da Faculdade de Arquitetura Mackenzie. Assim foi feito pelos proprietrios da Kiss, que colaram no teto uma espuma de isolamento acstico altamente combustvel, proibido por lei. A espuma foi colocada por um funcionrio da boate em julho. No poderiam t-la usado de forma alguma, afirmou o delegado Marcelo Arigony, responsvel pela investigao do caso. Esse material pegou fogo logo que um integrante da banda Gurizada Fandangueira acendeu um sinalizador no palco na madrugada do domingo 27.

Aps donos negarem o uso de fogos no interior da boate, o delegado responsvel
 pelo caso postou no Facebook, na quinta-feira 31, suposta foto de show pirotcnico na Kiss
 
Em So Paulo, a Outlaws, casa de msica sertaneja do msico Luan Santana, exibia at a semana passada em sua pgina no Facebook fotos de grupos de frequentadores  a casa comporta 800 pessoas  segurando garrafas de champanhe acopladas a artefatos pirotcnicos em ambiente fechado. De acordo com a assessoria de imprensa do local, a cena no vai mais se repetir. Outra prova de que durante muito tempo convivemos sem saber com a insegurana nos espaos de diverso  uma pesquisa divulgada pela Proteste Associao de Consumidores em 2011. O resultado do estudo, que avaliou quesitos bsicos de segurana em 17 casas de So Paulo e Rio de Janeiro, j mostrava a fragilidade do cumprimento de normas de segurana  poca: nenhum dos estabelecimentos cumpria todos os critrios necessrios. Vimos vrias situaes de risco. Nenhuma casa possua a lotao mxima afixada na porta, algumas tinham as sadas de emergncia obstrudas e outras nem sequer possuam extintor de incndio em lugar visvel, comenta Maria Ins Dolci, coordenadora institucional da Proteste. Uma das visitadas foi a The History, que fica na Vila Olmpia, em So Paulo. A The History apresentava muitos obstculos prximos  sada, o que pode dificultar a fuga em caso de incndio. 

O medo, tanto dos frequentadores quanto dos proprietrios, tem se refletido no movimento das noites em todo o Pas. Na tera-feira 29, um dos mais famosos locais de diverso do Brasil, a rua Augusta, em So Paulo, estava vazia. Dois dias aps a tragdia de Santa Maria, poucas foram as casas noturnas paulistanas que se arriscaram a abrir as portas. Mesmo aps a reunio com o prefeito Fernando Haddad, vrios donos de boates optaram por no retomar a programao. O grupo justifica que  um modo de expressar solidariedade e, ao mesmo tempo, checar a prpria segurana. Tambm correm para corrigir falhas que seriam flagrantes. A profuso de portas fechadas  um indcio claro de que muita coisa permanece obscura quando o assunto  a segurana de espaos onde multides se concentram.  fundamental que se estabelea uma legislao federal que unifique as normas para estabelecimentos, afirma o especialista em anlise e gesto de risco Ricardo Chilelli, diretor-presidente da RCI First. A expectativa  de que esses sinais se transformem em medidas objetivas para garantir que tragdias como a de Santa Maria no se repitam.


4. A ARMADILHA DE EDUARDO CUNHA
Como o candidato a lder do PMDB teria manobrado para transformar o Banco Nacional em credor da Unio, o que geraria um rombo de R$ 33 bilhes nos cofres pblicos
Claudio Dantas Sequeira

 A ARTIMANHA - Eduardo Cunha tentou favorecer o Banco Nacional apresentando emendas de contrabando s Medidas Provisrias
 
O deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ) conta as horas para a eleio deste domingo 3 que pode lhe garantir a liderana do partido na Cmara. No Palcio do Planalto, porm, a possibilidade de que o peemedebista conquiste mais poder  vista com temor. O motivo  que nos ltimos trs anos Cunha trabalhou de forma persistente para tentar viabilizar uma operao financeira que provocaria um rombo de mais de R$ 33 bilhes nos cofres pblicos. A armadilha, conduzida longe das vistas do cidado comum e de boa parte de seus colegas de Congresso, previa a quitao da bilionria dvida dos acionistas do Banco Nacional, extinto em 1995, com ttulos podres, sem liquidez e de securitizao incerta. Com a manobra, o banco passaria de devedor confesso  confortvel condio de credor da Unio. Tudo isso  base da caneta de Cunha, que teria plantado emendas de contrabando  aquelas que so feitas sem discusso prvia dos parlamentares  em medidas provisrias. 

Por duas vezes, a presidenta Dilma Rousseff vetou os artigos das MPs para impedir a operao. As primeiras articulaes comearam em 2009, quando Eduardo Cunha passou a defender a ampliao da Lei do Refis Tributrio para instituies bancrias liquidadas. O alvo seriam os bancos resgatados pelo Proer (Programa de Estmulo  Reestruturao e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional) na dcada de 1990, especificamente o Banco Nacional. Cunha fez consultas ao Palcio do Planalto, sem sucesso. Props ento uma emenda abrangente, instituindo o programa de parcelamento para devedores de autarquias e fundaes. O texto foi inserido na Medida Provisria 472 pelo relator, o senador Romero Juc (PMDB/RR), depois aprovado no Congresso e sancionado pelo Executivo.
 
Com a expectativa de descontos de at 45% sobre os encargos da dvida, a nova Lei 12.249 beneficiou milhares de contribuintes. Os bancos do Proer tambm aproveitaram a oportunidade para renegociar seus dbitos com o Banco Central. A dvida chegava a R$ 64,5 bilhes, dos quais R$ 31,8 bilhes cabiam ao Banco Nacional. Para o governo, receber parte da dvida era melhor do que nada. O Nacional, porm, pleiteou desconto maior do que o previsto na lei e ainda ofereceu para quitao crditos emitidos contra o Fundo de Compensaes de Variaes Salariais (FCVS)  ttulos incertos, ilquidos e inexigveis. 

Para avanar no pleito do Banco Nacional, contudo, no bastava a Medida Provisria. Era preciso uma portaria da Advocacia-Geral da Unio. Foi assim que o deputado teria levado um texto para o prprio ministro Luis Incio Adams, em que a Unio reconhecia os FCVS como instrumentos da dvida pblica federal. Na audincia, tambm estava presente o ex-presidente e acionista majoritrio do Nacional Marcos Cato de Magalhes Pinto. Adams discordou da portaria e consultou o procurador-geral do Banco Central, Isaac Sidney Menezes. Ouviu uma opinio igual  sua. Na quinta-feira 31, Cunha negou  ISTO o teor dessa reunio. Disse que s esteve com Adams para discutir emendas propostas pela prpria AGU. O advogado-geral da Unio apresentou outra verso: Fizemos o trabalho de avaliar e ouvir os argumentos do deputado. Mas a soluo no era vivel juridicamente e no atendia ao interesse da Administrao, disse Adams  ISTO. Quando confrontado com a declarao de Adams, Cunha afirmou: Isso  provavelmente um erro de interpretao dele. Participei de um debate. Nunca sugeri nada.
 
Em 2011, em nova medida provisria, apareceu uma emenda que repetia a mesma proposta feita  AGU. O Congresso aprovou a MP, mas, alertada por Adams e Isaac, Dilma vetou. Nas razes do veto, a presidenta afirmou que aquela emenda atropelava o procedimento de securitizao dos crditos de FCVS, indispensvel para torn-los lquidos, certos e exigveis. E alertava sobre o dano aos cofres pblicos. A proposta favorece os devedores em detrimento da Administrao Pblica ao considerar o valor de face das dvidas do FCVS. 

Derrotado pela segunda vez, Eduardo Cunha teria feito nova e derradeira investida. Um ano depois, inseriu outra emenda de contrabando numa terceira MP (561/2012), convertida na Lei 12.693. A abordagem, agora, era diferente. Em vez de empurrar crditos da Unio para o banco, tentava-se liberar o Nacional da exigncia de regularidade fiscal, passo fundamental para dar incio ao processo de novao, ou validao, dos FCVS. Uma espcie de carona no benefcio oferecido a empresas, cooperativas e produtores rurais de municpios atingidos por desastres naturais. Dilma, novamente, vetou a iniciativa.
 
Na semana passada, depois de falar com a reportagem de ISTO, Cunha enviou nota atribuindo a denncia a adversrios. Toda essa invencionice maldosa e irresponsvel tem um nico intuito: tentar constranger-me diante da opinio pblica, simplesmente porque sou candidato para o cargo de lder do meu partido na Cmara, escreveu. 


5. MULTIDES, A GRANDE AMEAA
Como se instala o pnico em aglomeraes, de que forma as pessoas reagem e o uso da tecnologia no controle de acidentes

 Agentes pblicos do Rio vo monitor o Carnaval.  dir., torcedores derrubam alambrado do novo estdio do Grmio
 
Milhares de pessoas sairo s ruas nos prximos dias para pular Carnaval. Em cidades como Rio de Janeiro, Recife e Salvador, grupos gigantescos de folies iro, nos blocos carnavalescos, dividir o mesmo espao em vias e caladas. Nas passarelas do samba, multides estaro nas arquibancadas assistindo ao desfile das escolas. O que pode acontecer se uma situao de pnico surgir? As mortes na boate Kiss de Santa Maria mostram que grandes aglomeraes podem virar grandes tragdias. De acordo com pesquisadores da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, esse  um problema cada vez mais comum em um mundo onde a populao s cresce. Somente nos ltimos 30 anos, esse tipo de ocorrncia aumentou em mais de 400%. Nos 215 episdios estudados entre 1980 e 2007, aproximadamente sete mil pessoas morreram e outras 14 mil ficaram feridas. Em todos os casos, a motivao para o pnico  a mesma: um gargalo de circulao.
 
Quando o tumulto coletivo se instaura, o que se v  uma massa se movendo sem noo de direo, com os corpos se chocando desordenadamente. ?A densidade de ocupao de espao e a quantidade de pessoas por metro quadrado no permitem sequer que os indivduos se locomovam com algum senso. Movimentam-se em bloco de forma desordenada?, diz Marcus Vinicius de Oliveira, psiclogo especialista em desastres e emergncia da Universidade Federal da Bahia. Sete corpos em um espao de um metro quadrado j so suficientes para fazer um indivduo tirar os ps do cho e ser carregado pela massa ao redor. Em lugares fechados, ocorre ainda o chamado ?efeito do arco?, que consiste na aglomerao de pessoas em semicrculo em torno da porta, tentando fugir. Colocar uma coluna a 1,5 metro da sada pode ser uma forma simples de reduzir o nmero de mortos quando o arco se forma. ?Nas simulaes que fazemos, apenas com essa medida temos pelo menos uma reduo de cerca de 10% dos mortos?, diz Maria das Graas Marietto, especialista em comportamento coletivo da Universidade Federal do ABC.
 
Para o Carnaval de rua do Rio, agentes pblicos procuram instalar postos de monitoramento pelo circuito para agir em situaes de crise em meio  multido de folies. L, por exemplo, um dos mais famosos blocos de rua, o Simpatia  Quase Amor, costuma reunir 200 mil pessoas. ?Como no tem catraca nem corda, no d para saber quantas pessoas vo se reunir?, diz Rita Fernandes, presidente da Associao de Blocos Carnavalescos do Rio de Janeiro. O comportamento de um indivduo em uma situao de massa pode mudar substancialmente independentemente da sua personalidade. Em grupo, as pessoas podem se submeter a participar de manobras arriscadas sem que se reflita muito sobre o assunto. Na semana passada, um grupo de torcedores do Grmio comemorou um gol do time, em seu novo estdio, com uma tradicional coreografia, quando os fs se jogam uns sobre os outros em descida acelerada em direo  grade que fica atrs do gol. Nesse dia, a grade cedeu. Oito pessoas caram no fosso que separa a arquibancada do campo e cinco foram hospitalizadas. Esse tipo de celebrao em massa dever ser proibida.
 
No Brasil, falta uma cultura, tanto por parte da sociedade quanto do poder pblico, de se pensar no risco inerente s multides. A primeira responsabilidade, segundo a professora Maria das Graas Marietto,  do poder pblico, que precisa garantir a infraestrutura. Em seguida, entra em cena a educao para situaes de emergncia. ?Em sociedades em que o treinamento  mais constante, como nos lugares onde ocorrem terremotos, as pessoas esto mais preparadas, pelo menos nos primeiros momentos de formao do pnico em multides?, avalia a professora. Outra grande contribuio para a preveno vem sendo dada pela tecnologia, por meio de softwares que ajudam a prever o comportamento das massas em situaes de risco. Um exemplo brasileiro  o CrowdSim, programa de computador desenvolvido pelos pesquisadores da Pontifcia Universidade Catlica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). O objetivo  usar a tecnologia para ajudar a se pensar sadas de emergncia e rotas de fuga para os estdios da Copa de 2014.

Carina Correa chora a morte da filha Thanise, de 18 anos, em protesto na tera-feira 29


6. O TUCANO INDESEJADO
Ele  deputado, foi governador e senador. Est no PSDB desde a sua fundao, mas virou o principal ru no processo do Mensalo Mineiro. Agora seus correligionrios e aliados polticos o querem fora do partido
Alan Rodrigues

Qualquer partido que se pretenda vitorioso nas eleies deveria, antes de tudo, livrar-se de seus esqueletos guardados no armrio. Sobretudo quando esses esqueletos so frequentemente relacionados a prticas polticas as quais a sociedade no tolera mais. Ao que parece, o PSDB almeja trilhar seu caminho at o pleito de 2014 orientado por este princpio. Atento ao calendrio eleitoral, o partido vislumbra cortar na prpria carne. O alvo  o deputado Eduardo Azeredo (PSDB-MG). Principal protagonista do mensalo mineiro  esquema semelhante ao escndalo petista, tambm tramado por Marcos Valrio, de desvio de verbas pblicas de estatais mineiras para financiamento de campanha , Azeredo  ru no Supremo Tribunal Federal por peculato e lavagem de dinheiro. A expectativa  de que o mensalo mineiro seja julgado em 2014. Mas, como os tucanos no pretendem ficar com essa pendncia at a concluso do caso, h um intenso movimento pela expulso de Azeredo dos quadros partidrios. A presso  para que ele se afaste at o Congresso da legenda, que acontecer em abril deste ano.  um tremendo constrangimento, afirma um tucano paulista. O que o Azeredo fez l atrs, os outros polticos no tm que pagar, diz o deputado federal Nrcio Rodrigues (PSDB-MG), membro do diretrio nacional da legenda.
 
A 18 meses da eleio presidencial, parlamentares tucanos admitem nos bastidores que a permanncia de Azeredo no bloco de oposio tem impedido que o PSDB faa um discurso ainda mais forte sobre as condenaes petistas e a defesa da tica na poltica. O maior temor na legenda  de que Azeredo, assim como os mensaleiros petistas, tambm seja condenado  priso. Temos que resolver esse fardo para hastearmos a bandeira da tica, disse  ISTO um outro parlamentar do PSDB, presente ao Congresso paulista do partido. Tradicional parceiro do PSDB, o Democratas tambm pressiona pela sada de Azeredo. Dirigentes do partido argumentam  e com muita razo  que o tratamento dispensado pelos tucanos ao caso Azeredo  inversamente proporcional  maneira como as denncias do chamado mensalo do DEM foram encaradas pelos caciques do PSDB em 2008. Na ocasio, o PSDB defendeu a expulso imediata do ex-governador do Distrito Federal Jos Roberto Arruda, flagrado com dinheiro ilegal. O partido ainda forou a sada da legenda de seu vice, Paulo Octvio. Na viso deles, a deciso foi a mais correta e deve ser levada a cabo pelo PSDB em relao a Azeredo. O PSDB tem o dever moral de afastar ou at expulsar o Azeredo, prega uma parlamentar do DEM do Distrito Federal. A postura do DEM e de setores do PSDB est em consonncia com os anseios da sociedade.

EXPULSO - O DEM, do senador Jos Agripino, tambm pressiona pela sada de Eduardo Azeredo do PSDB
 
O julgamento do mensalo petista, em 2012, fez histria e mostrou que as instituies no podem mais ser lenientes com prticas de corrupo perpetradas por polticos, independentemente do seu calibre. O que causa espcie  que o caso envolvendo o deputado tucano tenha chegado bem depois  Justia, apesar de ter acontecido quatro anos antes do esquema petista. Somente em 2009 a denncia foi recebida pelo ministro Joaquim Barbosa, do STF. O processo est sem relator desde que Barbosa assumiu a presidncia da corte, e ir para as mos de um novo ministro ainda a ser indicado pela presidenta Dilma Rousseff em substituio a Carlos Ayres Britto, aposentado em novembro de 2012. canaliz-lo para a campanha do PSDB. Procurado por ISTO, Azeredo afirmou que pretende ser novamente candidato a deputado federal pelo PSDB. No existe hiptese de ele deixar o PSDB, declarou em nota sua assessoria de imprensa. No  o que pensam os correligionrios do PSDB, que primam pela tica e retido no exerccio da poltica. Estes querem Azeredo fora da legenda.


7. SANTA MARIA, ROGAI POR ELES!
A cidade que morreu com seus jovens busca uma razo para renascer nos sonhos dos que se foram e na luta dos heris que evitaram um desastre ainda maior
Amauri Segalla, enviado especial a Santa Maria

O engenheiro agrnomo Sylvio Henrique Bidel Dornelles acordou sobressaltado na manh do domingo 27. Seu apartamento foi invadido pelo som de motores e sirenes de ambulncias e carros de polcia. E, de repente, viu-se em um macabro camarote. De sua varanda, ele assistia aos veculos parando ali defronte, onde fica o Centro Desportivo Municipal de Santa Maria. Deles, um a um, eram desembarcados jovens sem vida. Foram 234 ao longo do dia. A tragdia o alcanou logo cedo e foi se aproximando cada vez mais, devastando-o cada vez mais. Logo ele ficou sabendo que os corpos vinham da boate Kiss, que a filha Clarissa frequentava at que o pai a proibisse, depois que ela presenciou uma briga no local. Nos rostos desesperados de quem chegava em seguida,  procura de notcias dos estudantes que saram de casa na noite anterior para ir a uma festa e no haviam voltado, enxergava figuras conhecidas. Alguns pais no tiveram coragem de reconhecer os corpos e me chamaram para ir junto, diz Dornelles na quarta-feira 30, enquanto aponta, da varanda do apartamento, os galpes antes cheios de caixes e agora vazios. Ele tem dificuldade para falar sobre isso. Enquanto conversa, o som da voz sai baixo, quase inaudvel, e as frases so curtas. Professor do curso de agronomia da Universidade Federal de Santa Maria, ele convivia diariamente com 31 daqueles rapazes e moas mortos. Eram seus alunos. Dezoito, de uma mesma classe. Dornelles, como toda a Santa Maria, tambm tinha sido atingido. Tambm no dorme mais em paz. Tambm no consegue trabalhar. Tambm no sabe onde buscar foras para recomear. Sabe apenas que a cidade jamais ser a mesma.

Segunda-feira 28: a populao de Santa Maria faz manifestao um dia aps o incndio que enlutou a cidade
 
Voc precisava ver, antes disso tudo Santa Maria transbordava alegria, diz. Na tarde daquela quarta-feira, as alamedas arborizadas da Universidade Federal de Santa Maria deveriam estar movimentadas. Em um dia normal, os prdios que abrigam cursos concorridos de agronomia, farmcia e veterinria, alm de muitos outros, deveriam ressoar aquela excitao tpica de um ambiente estudantil. Em um dia comum, haveria vida pulsante ali. A Federal parece ter sido abandonada s pressas, como se msseis inimigos fossem desabar sobre ela. No se v uma mnima frao de seus 27 mil estudantes. Os 1,8 mil professores sumiram de vista. No h ningum nos laboratrios. Nem nas bibliotecas. As lanchonetes esto s moscas. As luzes, apagadas. A Universidade Federal de Santa Maria est deserta por um motivo bvio: luto. At a sexta-feira 1, 103 de seus alunos tinham morrido em decorrncia do incndio na boate Kiss. Pelo menos outros 30 continuavam internados. Como a festa na Kiss foi promovida por diretrios estudantis,  provvel que mais de 500 pessoas ligadas de alguma forma  instituio estivessem na boate na noite da tragdia. As aulas foram suspensas por uma semana, mas  certo que a dor vai durar muito mais. E no apenas ali. Santa Maria tem sete universidades frequentadas por 40 mil alunos. No vero, s 9 horas da noite ainda tem sol e as pessoas ficam na rua at tarde. Os ndices de violncia so baixos, no falta trabalho nas reas rurais e o universo estudantil atrai professores e pesquisadores, que fizeram surgir, nos ltimos anos, uma nova classe mdia. O paraso no existe mais.

Fbio Jos Cervinski, 26 anos, era um dos alunos do curso de agronomia da Universidade Federal de Santa Maria. H trs anos, o jovem estudante era s bom humor. Havia vencido a luta contra a leucemia, doena que o vitimou quando ele tinha apenas 17. Fbio passou seis anos doente, submeteu-se a tratamentos dolorosos, inmeras sesses de quimioterapia, at, finalmente, receber o diagnstico de cura. Desde ento, no se cansava de festejar com a famlia. Durante a luta contra o cncer, o jovem disse aos parentes que, se morresse, gostaria de ser enterrado ao lado da sepultura do av, na pequena cidade de Paim Filho, no interior do Rio Grande do Sul. Ningum mais se lembrava disso. Afinal, o cncer era passado e Fbio tinha um futuro enorme pela frente. Mas o garoto que sobreviveu a uma luta de seis anos contra a leucemia no resistiu ao gs venenoso da Kiss.O incndio trouxe o pedido de volta  memria dos pais e foi atendido. Fbio agora est ao lado do av em Paim Filho.
 
Para fazer a foto desta reportagem, o professor Dornelles voltou  sala de aula da Federal de Santa Maria. Ele veste camiseta preta e tem nas mos as provas que os alunos fizeram na manh da sexta-feira 25. Pouco tempo depois, na madrugada de sbado para domingo, quatro desses estudantes morreram no incndio da boate Kiss. Dornelles mal consegue olhar para os papis. Ele os entrega ao reprter, depois pega de volta com cuidado e acaba por colocar tudo sobre a mesa. Ento, motivado provavelmente por um instinto de proteo, abraa com fora o material. Vou ligar para os pais, porque agora isso pertence a eles, diz. Uma das provas foi feita em papel rosa enfeitado com desenhos de borboletas coloridas.  da estudante do primeiro semestre de agronomia Rhassa Gross Curia, uma das vtimas fatais da Kiss. O professor Dornelles no consegue parar de pensar nela e em todos os outros. Eu paguei R$ 15 pelo convite da festa na Kiss, diz ele. Fiz isso para ajudar os alunos. A menina que me vendeu o convite morreu.

A Kiss dilacerou muitas famlias e foi ainda mais cruel com a dona de casa Elaine Gonalves. Aos 63 anos, ela enfrentou h dois anos a morte do marido e agora se depara com o desaparecimento dos dois filhos, Deivis e Gustavo Marques Gonalves. Depois da perda do companheiro, os jovens eram a alegria de dona Elaine, os nicos capazes de preencher seus dias. Eles saram de casa juntos, bonitos e faceiros, para nunca mais voltar, diz a me. O mais velho, Deivis, 33 anos, morreu na prpria boate e foi enterrado na segunda-feira 28. O irmo, Gustavo, 21, passou trs dias internado, mas no resistiu. Na tera-feira 29, Elaine recebeu a notcia da morte do segundo filho. Deus estipulou um tempo certo para eles, ento o que me resta  aceitar, diz. Inconsolvel, a dona de casa sabe que agora ter de enfrentar uma nova realidade. Meu Deus,  um pesadelo, mas eu sei que  sem eu acordar. E agora minha casa vai ficar vazia. Apesar da prostrao causada pelas perdas irreparveis, dona Elaine no est conformada. Quero justia, afirma, enquanto mantm os punhos fechados.

A morte inesperada  chocante sob todos os aspectos, mas ainda mais dramtica para os pais. Nos cemitrios de Santa Maria, muitos deles no abandonaram o tmulo de seus filhos, mesmo dois ou trs dias depois dos enterros. Na quarta-feira 30, Veleda Ames e Joo Carlos da Silva permaneceram um bom tempo imveis, abraados diante da sepultura do filho, Alexandre Ames Prado, 18 anos, estudante de jornalismo que tinha sido sepultado dois dias antes. No tenho mais objetivo na vida, diz Veleda. A menos de 50 metros dali, aconchegados em um banco de cimento, estavam Sandra e Carlos Favarin, pais de Kell e Aline Favarin, estudante de direito que morreu aos 22 anos e que tambm havia sido enterrada na segunda-feira. A mdica disse que ela no sofreu, afirma Sandra, tentando, de alguma forma, encontrar conforto, se  que  possvel numa situao como essa. Nos cemitrios de Santa Maria , flores frescas estavam por toda parte e dava para ver at os coveiros, habituados  rotina da morte, com lgrimas nos olhos.

Depois de sepultar os filhos, muitos pais preferem enterrar tambm a tragdia e postergar a longa despedida que vem pela frente  o desvencilhamento das roupas, dos objetos pessoais e das lembranas. Trs dias depois da morte da filha Mirela, 21 anos, Helena Rosa da Cruz ainda no teve coragem de jogar a metade do lanche que a jovem havia deixado na geladeira de casa antes de ir  boate Kiss. Ela e o marido, Delon, tambm resolveram fechar o quarto da jovem, e do filho, Jos Manuel, 18, que tambm perderam na tragdia. Decidimos fingir que eles esto viajando. E vai ficar assim at termos coragem, diz Helena, que foi dormir na madrugada do dia 27 tranquila, pois o casal de filhos cuidaria um do outro na balada, como sempre. Perto das 4h, tocou o telefone na casa de Helena. Era uma amiga dos irmos avisando sobre o fogo na Kiss. O casal correu para o cenrio da tragdia e logo percebeu que no encontraria seus filhos l. Dividiu-se e comeou a busca por hospitais. Era comeo da tarde do domingo e Delon e sua esposa, depois de ir e vir de todos os centros de sade, ainda no haviam encontrado Mirela e Jos Manuel  os nomes no apareciam em nenhuma lista de feridos. s 13 horas, o casal se encaminhou para o ginsio Farrezo, onde estavam as centenas de corpos. Os policiais chamavam de dez em dez nomes. Amparada em uma amiga, totalmente desorientada, Helena ouviu, apenas na quinta chamada, o nome de Jos Manuel. Ele era o corpo 62. Inerte diante do filho, a me se deparou com o de Mirela, ao longe. A partir da, o casal enfrentou, assim como todas as famlias que l estavam, dilaceradas com as perdas de seus jovens, uma srie de filas: para a certido de bito e para conseguir caixes nas funerrias, entre outras. At que Helena pde ir para casa separar a roupa de seus meninos. Para Jos Manuel, que fazia parte de um grupo de danas tpicas, bombachas, camisa branca, guaiaca, leno vermelho, botas e boina. J sua Mirela, vaidosa como ela s, rainha de Carnaval do clube e miss Santa Maria aos 10 anos, um vestido branco com brilhante na gola e um sapato de salto altssimo. No enterro, todos choraram com e por Helena, que diante dos corpos dos filhos agradeceu a presena dos amigos e acrescentou: Se eles foram pessoas to maravilhosas, e se eu estou aqui agora,  porque vocs nos encheram de amor.

Janana Portela, 19 anos, no era estudante universitria, nem estava na boate Kiss para se divertir. Moradora da periferia de Santa Maria, do bairro de Chcara das Flores, a jovem estava no epicentro de uma das maiores tragdias da histria do Pas porque se ofereceu para substituir a me, Natalcia Moraes da Silva, que estava se sentindo mal, na funo de lavar copos durante a festa. No era a primeira vez que Janana substitua Natalcia, empregada da boate. A jovem chegou a escapar do incndio, mas entrou mais duas vezes na Kiss para auxiliar nos resgates de quem ainda sofria l dentro. Na terceira vez, no conseguiu sair. Esforada, queria ser veterinria, e era muito querida. Da Chcara das Flores, saram vans, carros e um nibus cheio de vizinhos para o enterro, na segunda-feira 28.

 difcil encontrar algum na cidade que no tenha sentido a tragdia de perto. O recepcionista do hotel diz que o melhor amigo est internado. Voc est no restaurante e o dono pede uma salva de palmas para o sobrinho, que saiu ileso da danceteria. Os shoppings e as lojas de ruas colocaram fitas de luto em suas fachadas. Nos carros dos taxistas, uma faixa preta homenageia os mortos. Uma casa colocou um cartaz que pede justia. No nibus que faz o trajeto Porto Alegre-Santa Maria, as pessoas relatam o sofrimento de seus entes. Em choque, a cidade ficou paralisada. Na semana passada, o frum permaneceu fechado. Mdicos e dentistas cancelaram consultas. Supermercados no abriram. Santa Maria pareceu viver o delrio da msica O Dia em Que a Terra Parou, de Raul Seixas.

No meio desse cenrio de luto permanente e dessa atmosfera de dor insepulta, brotam as histrias dos heris annimos da tragdia de Santa Maria. Se no fossem eles, garantem as pessoas que estavam presentes na angustiante madrugada do domingo 27, muito mais vidas teriam sido perdidas. E a imagem smbolo desses heris, que correu o mundo,  a do estudante de educao fsica da UFSM Ezequiel Lovato Corte Real, 23 anos, carregando um homem nos braos pelas ruas de Santa Maria. O jovem acredita ter tirado pelo menos 30 pessoas da boate Kiss, s no sabe se todas elas estavam vivas. Ele estava muito perto do palco, com duas amigas, quando viu o vocalista da banda pegar o sinalizador e apontar para o alto. Viu, tambm, algum, que ele no sabe quem, tentar usar o extintor, que no alcanou o forro e, em questo de segundos, o fogo alastrar-se pela espuma do teto. Formou-se uma manta por cima de ns, diz. Ezequiel conseguiu manter a calma e conduziu as duas amigas por um caminho alternativo at a porta de sada. No caminho, viu dezenas de pessoas serem pisoteadas e gotas grossas de espuma derretida cair sobre os frequentadores, que gritavam, desesperados. Com as colegas em segurana, Ezequiel, um ex-fisiculturista, no teve dvida: tirou a camisa, protegeu seu rosto e voltou para o inferno de que havia acabado de escapar. Entrou e saiu da Kiss incontveis vezes, ao lado dos bombeiros, mas no conseguia avanar mais do que cinco metros, por causa da fumaa espessa. Durante o resgate, a pele descolava do seu corpo. Puxava os corpos pela parte que conseguia tocar, sem ver. Enquanto puxava um, sentia algum me segurando. Tentei dar as mos para dois ao mesmo tempo. Como iria escolher s um? O estudante s parou sua busca quando constatou que no havia mais ningum com vida l dentro. Foi para casa, tomou um banho, descansou por cerca de uma hora e seguiu para o hospital, pois sentia o pulmo roncando. Desde o dia da tragdia, recebe agradecimentos pelo ato heroico. No peito, um sentimento de frustrao por no ter conseguido salvar mais gente. No me lembro de nenhum rosto das pessoas que salvei. S lembro o rosto de quem no salvei.

Como a tragdia afetou todo mundo, uma onda de solidariedade varreu a cidade. E ela comeou com as prprias vtimas da tragdia. Muita gente foi salva pelo estudante de educao fsica Vincius Rosardo, 26 anos. To bravo quanto Ezequiel, ele foi um dos primeiros a sair da Kiss, mas resolveu voltar  boate para ajudar no socorro s vtimas. Segundo relatos de pessoas que o viram em ao, Vincius, de quase dois metros de altura e 130 quilos, tirou pelo menos 14 pessoas com vida que estavam presas no interior da Kiss, muitas vezes levando uma em cada brao. No foi seu primeiro incndio. Quando tinha 12 anos, ajudou o pai a debelar o fogo de uma casa vizinha, carregando baldes. Se no fossem ele e muitos outros jovens que voltaram para ajudar, essa tragdia teria 500 mortos, diz o pai do estudante, o gerente de eventos Ogier Rosardo, 51 anos. Em 2012, Vincius havia se tornado voluntrio da Apae e tinha comeado a dar aula de dana a idosos. Com formatura prevista para este ano, Vincius pretendia se mudar para So Paulo, onde queria se tornar lutador de MMA. Parentes contam que ele adorava festas, mas cancelava qualquer compromisso para ajudar um amigo. Era um rapaz muito humilde. Nunca vi ningum falar que no gostava dele, diz o pai. Brincava que ele era como uma baleia: grande, forte e doce. Ele salvou muitas vidas, menos a sua. Foi encontrado desacordado dentro da boate e morreu a caminho do hospital.

A solidariedade era vista em todos os lugares. Moradores doaram gua e comida, empresrios ofereceram veculos para o transporte dos feridos, profissionais especializados se dispuseram a trabalhar voluntariamente. Na tarde da tera-feira 29, a estudante de terapia ocupacional Kssia Flores, 19 anos, corria de um lado a outro dos corredores do Hospital Caridade, onde dezenas de feridos se recuperam. De luvas nas mos, ela servia lanches e bebidas para os familiares das vtimas. Por que fez isso? Foram duas as razes. Depois do que aconteceu, eu no podia ficar de braos cruzados, diz Kssia. Mas havia outro motivo. Meu primo-irmo morreu no incndio e eu no consigo ficar em casa. Os corredores e recepes de hospitais de Santa Maria pareciam, at quase uma semana depois do incndio, verdadeiros centros universitrios. Estavam repletos de jovens que pretendiam visitar irmos, amigos, primos e namorados.

Passeata no centro de Santa Maria, na noite da segunda-feira 28, em memria das vtimas da tragdia
 
A operadora de caixa das Lojas Americanas Alessandra Mattos, 23 anos, no para de pensar nos cinco amigos que perdeu no incndio da boate Kiss. Mas o que tambm no sai da cabea de Alessandra  que ela foi salva pelo cime de seu marido. Eu estava com o convite comprado, mas ele no me deixou ir, diz. Foi por cime e pelo fato de o casal ter um filho de trs anos. Ele disse que era para eu ficar em casa e cuidar do guri. Fiquei com raiva, ameacei, mas no fui.A corriqueira briga de casal que tanto a irritou, livrou a comerciria do horror daquela madrugada. Todos os seus colegas, com quem ela certamente estaria na casa noturna, morreram na tragdia. Alessandra perdeu os amigos Neiva Carina de Oliveira Marin, Odomar Gonzaga Noronha, Paula Rodrigues Costa e Sandra Victorino Goulart, alm de Evelin Costa Lopes, que trabalhava em outra loja. Tive uma dor no peito horrvel quando soube, fui parar no hospital. Fico aliviada por estar viva, mas triste de no t-los mais por perto, diz a jovem, que viu seus amigos pela ltima vez no sbado 26, antes de sair do trabalho. Eles me abraaram, me beijaram. Ainda bem.

 Algumas pessoas tiveram o crculo de amizades praticamente destrudo. A vendedora Luciane Seger, 27 anos, por exemplo, descobriu na segunda-feira 28 que 23 colegas tinham morrido no incndio. Era a turma que trabalhava no principal shopping da cidade e que saa junto todo fim de semana. Luciane certamente estaria na festa do sbado 27 na Kiss, ao lado de seus amigos de todas as horas. Mas, no dia da tragdia, a vendedora no pde ir  Kiss porque estava muito ocupada com os preparativos para um churrasco em famlia no domingo 27. Por causa disso, desistiu da balada, pois precisaria acordar muito cedo no dia seguinte. No teria problema, o grupo estaria junto na segunda-feira 28, reunidos trabalhando no shopping, e nos prximos fins de semana, pensou ela, antes de ser assolada com as notcias. desesperador pensar no nmero de pessoas prximas que morreram, diz Luciane.
 
A tragdia ter um impacto na teia social de Santa Maria. Novos vnculos afetivos tero que ser criados. Em cidades de pequeno e mdio porte, isso  mais difcil. No aparece tanta gente nova assim, a no ser no incio dos anos letivos das universidades, quando levas de calouros chegam para preencher as vagas.
 
Alm das universidades, as Foras Armadas tambm atraem para Santa Maria pessoas de lugares distantes. O primeiro-tenente do Exrcito Leonardo Machado Lacerda, 28 anos, foi transferido do Rio de Janeiro apenas 15 dias antes da tragdia. Na madrugada de sbado para domingo, ele quis ir  Kiss com seus colegas para comemorar sua transferncia para o Sul. Ele estava muito feliz e animado com as novas perspectivas de carreira. Militar treinado, com fsico gil, Leonardo conseguiu sair com rapidez da boate no momento do incndio. Mas, como tantos outros, num primeiro momento ele saiu ileso da fumaa que consumiu o teto da boate, mas resolveu voltar para tirar pessoas l de dentro. Conseguiu salvar um oficial do batalho em que servia. Com o colega a salvo, retornou para a casa tomada pela fumaa txica para tentar buscar duas amigas. No conseguiu. Tornou-se outro heri e sua pgina na rede social Facebook est repleta de bonitas mensagens de condolncias que lembram seu ato gigantesco.
 
Toda tragdia  triste, mas a de Santa Maria mexeu com as emoes mais profundas de brasileiros e estrangeiros porque suas vtimas so muito jovens. At a quinta-feira 31, o nmero de mortos era de 236. Desses 176 tinham entre 18 e 26 anos. A faixa etria com mais bitos  a de 18 anos, com 37 perdas, seguida pela de 20 anos (31 mortos) e 19 anos (28 mortos). Santa Maria sofreu ainda mais porque os desaparecimentos se deram no grupo que torna a cidade realmente especial, o de universitrios. Os moradores garantem que no h, no Brasil, nenhum lugar que se equipare a Santa Maria na relao entre estudantes de nvel superior e a populao total.

Eram 3h20 da manh, apenas um minuto depois de o Corpo de Bombeiros da cidade receber a primeira ligao alertando sobre o incndio na boate Kiss, quando os amigos da prottica Michele Cardoso, 20 anos, receberam a mensagem no Facebook: Incndio na Kiss socorro. Minutos depois, comearam as perguntas: Tu est bem? Outro texto questionava: Como assim? Explica isso; ou, ento: Srio, Miii? Um outro parecia gritar: Miiiiiiii. Em vo. Michele, que j havia trabalhado na Kiss, foi encontrada morta na boate. Ela estava acompanhada da irm, Clarissa Lima Teixeira, e do namorado, Joo Paulo Pozzobon, 20 anos, que tambm sucumbiram ao incndio. Joo Paulo morreu porque, j fora da boate, e contrariando o apelo dos amigos, retornou  Kiss para tentar salvar Michelle, que havia pedido socorro pela rede. O casal havia se conhecido na casa noturna seis meses antes. Foi a primeira grande tragdia brasileira testemunhada e comentada em tempo real pelas redes sociais, principalmente pelos jovens, que se identificaram com as vtimas. O pedido de Michele permaneceu online. Assim como milhes de tutes e posts relacionados  tragdia de Santa Maria, de todas as partes do mundo, de annimos e famosos, que se multiplicaram durante a semana.
 
A faixa etria que frequentava a Kiss era to baixa que a boate ganhou na cidade o apelido de Kids. Era comum ver menores de idade danando nas pistas e consumindo bebidas alcolicas. A Kiss tambm ganhou fama pela virulncia com que os seguranas tratavam os frequentadores. Vrios jovens disseram para a polcia que j tinham visto cenas de espancamentos motivadas por perda de comandas. Em 2011, a Kiss foi obrigada a pagar ao estudante Renato Michelon R$ 5 mil por agredi-lo na hora do pagamento da conta. O Renato pagou R$ 100 em dinheiro, mas faltavam R$ 20, diz a advogada Patrcia Michelon, irm de Renato e responsvel pelo caso. Como o carto dele no passou, os seguranas partiram para a agresso. Renato levou um soco na boca e uma cotovelada no peito  tudo devidamente registrado por testemunhas.

Apesar dos problemas, a Kiss lotava sempre e era a casa preferida dos jovens da cidade. Foi l que Brady Adrian Gonalves Rodrigues decidiu comemorar seu aniversrio. Lotado na 13 Companhia do Exrcito, em Santa Maria, ele fazia planos de retomar o ltimo ano do curso de educao fsica e, quem sabe, seguir uma nova carreira. O incndio destruiu suas ambies. Ele morreu ao lado da namorada, Ana Caroline Rodrigues, 19 anos, uma estudante do curso de tecnologia de alimentos da Universidade Federal. Ele tinha acabado de fazer 21 anos.
 
 manh de sexta-feira e as alamedas arborizadas da Universidade Federal continuam vazias. Santa Maria, rogai por eles!

